terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Mas se é cana-de-açúcar como é que vira álcool?


Como bem disse Lavosier "Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma".

A produção de álcool é mais uma dessas transformações da natureza. Os primeiros relatos de produção de bebidas alcoólicas datam de remotos 6000 anos atrás. Nessa época, não se entendia os mecanismos envolvidos nessa produção (o mais importante era ter uma biritinha mesmo).

Então, de onde vem o álcool?
Basicamente, alguns microrganismos (leveduras, por exemplo) são capazes de realizar o que chamamos de "fermentação alcoólica".

Como podemos imaginar, as leveduras precisam consumir algo para crescer e se reproduzir, como qualquer célula viva que não faça fotossíntese.

Em uma situação onde o oxigênio é abundante e a comida é farta, as leveduras não produzem etanol. O oxigênio é uma molécula essencial para fechar o ciclo de consumo do açúcar , sem ele a levedura nao consegue reciclar substâncias que precisa para viver e não pode continuar se alimentando e se multiplicando.

Logo, em um ambiente onde existe comida, mas falta oxigênio, essa reciclagem fica ameaçada. Mas a levedura (e outros microrganismo) possuem uma opção para burlar a ausência de oxigênio e ainda assim reciclar o que precisa para viver.

Aqui entra a produção do álcool. O álcool é o produto final da via de consumo do açúcar quando a levedura está na ausência de oxigênio.

Em outras palavras, quando a levedura se alimenta do caldo de cana na ausência de oxigênio ela excreta álcool no meio ao seu redor.

Esse processo pode acontecer de forma bem rápida com glicose ou sacarose de qualquer origem. A fermentação alcoólica nas usinas brasileiras duras em média de 6-8 horas.

Essa é uma tecnologia de certa forma bem simples e conhecida a milhares de anos. Claro que no Brasil houver aperfeiçoamento na produtividade e etc. Mas nossa maior vantagem mesmo é ter um clima favorável e grande disponibilidade de terra para a plantação da cana, o que nos colocou em uma posição de destaque.... Ou então, qualquer um desses países ricos sedentos pelo nosso etanol já estariam fazendo isso!

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Então vamos do começo.... Por que o Brasil começou a produzir álcool combustível mesmo?

Para um brasileiro de trinta anos é natural ir a um posto de gasolina e colocar álcool no seu carro (agora também flex). Mas sabemos que não foi sempre assim, e nem precisa ir muito longe, é só perguntar para a geração que nasceu em 50-60. Aliás, a própria denominação "posto de gasolina" mostra que o álcool é um intruso aí nesse meio.

Pois bem, então como tudo isso começou?
Em 1973, o Brasil ainda importava 80% do petróleo que consumia. Nessa época ocorreu o que conhecemos hoje como "a primeira crise do petróleo", quando o preço do barril aumentou de 2,70 doláres para 11,50 (quem diria, esse preço teria chegado a 140 doláres na crise de 2008, mas voltando...). Com esse aumento subito e inesperado, o petróleo passou a representar 32,2% do total de custos de importação do país, gerando um sério impacto na balança comercial.

Em resposta a crise, o governo brasileiro lançou três projetos majoritários em torno de 1975:
1 - Expansão da geração da energia hidroelétrica;
2 - Aumento na exploração e produção nacional de petróleo;
3 - Desenvolvimento de alternativas a gasolina e aos derivados do petróleo

É nessa terceira iniciativa que se enquadra o famoso programa Pró-álcool. Mesmo quem já nasceu depois da sua criação, provavelmente já ouviu falar dele.
O Programa tinha como principal objetivo canalizar a produção de cana de açúcar para a produção de álcool, que funcionaria como o principal substituinte da gasolina. Além disso, foi uma estratégia muito inteligente do governo, já que o preço do açúcar vinha acumulando quedas sucessivas no mercado internacional, não sendo mais tão lucrativo para os produtores.

E então foi exatamente nesse ponto que tudo começou.
Existe tanta confusão na política brasileira que às vezes até esquecemos de ver quando decisões acertadas foram tomadas. A criação do Pró-alcool foi uma delas. Uma iniciativa que faz nosso país ser hoje muito admirado nos quatro cantos do mundo. Tal admiração me gera muito mais orgulho do que saber que somos conhecidos pelo samba e pelo futebol...

É também verdade que a produção de álcool foi subsidiada pelo governo por muitos anos. Mas desde o fim da década de 90, a indústria sucro-alcooleira caminha com as próprias pernas, sendo movida 100% por capital privado. É mais uma prova que a decisão do governo de investir em um produto a longo prazo foi acertada.

Andando por esse mundo, já consigo reconhecer o nosso álcool da cana-de-açúcar como o terceiro ícone na lista das coisas que identificam o nosso país no exterior. É claro que primeiro perguntam sempre do samba e do futebol ;).

Os nossos carros flex são o novo produto de admiração... mas isso fica para outro dia.

Referência: Cerqueira Leite RCde, et al. Can Brazil replace 5% of the 2025 gasoline world demand with ethanol? Energy (2008), doi:10.1016/j.energy.2008.11.001